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The Backrooms - As Salas Traseiras

    Em 14 de Maio de 2019, um usuário anônimo postou uma imagem com texto em um subreddit e nesse momento ativou no imaginário um espaço completamente surreal e onírico (ou seria "de pesadelo"?). Esse não-lugar fictício (aliás multi-fictício, já que se multiplicou em milhares de autores contribuindo para essa montagem de mundo. Esse não-lugar chama-se The Backrooms, que numa tradução rápida fica As Salas Traseiras. Vamos entender um pouco sobre o post original, seus desdobramentos, e ver que tipo de sentidos podemos encontrar na semiologia e na filosofia. Essa é uma primeira exploração, que pode desdobrar-se em várias posteriormente.

O post original 


Tradução:  Se você não for cuidadoso e você ''noclip''* pra fora da realidade nas áreas erradas, você acabará nas Salas Traseiras, onde não há nada a não ser o fedor do carpete velho e úmido, o desespero do mono-amarelo, o infindável barulho de fundo de lâmpadas fluorescentes em modo máximo de zumbido, e aproximadamente 600 milhões que milhas quadradas de salas vazias aleatoriamente segmentadas para te prender.
Deus te proteja se você escutar algo zanzando próximo, ao redor, porque com toda a certeza dos infernos essaa coisa te escutou. 

*noclip é um conceito tirado dos gráficos em um computador.  quando um gráfico em 3D tá com o ''clip'' ligado, os objetos que ''batem'' naquele são repelidos.  se o ''clip'' está desligado - noclip - os objetos atravessam o gráfico. em jogos, quando acontece no clip (ou glitch) muitas vezes os personagens caem em ''lugares estranhos''.  Isso é muito comum em Minecraft, onde o jogador é levado ou ''outro lado do jogo'', como se fossem os bastidores. 

Essa imagem-texto foi a semente para uma série de ''relatos de exploradores'', ficções construídas por pessoas que curtiram a ideia do post original e que decidiram dar sua contribuição.  Os Backrooms são o produto de muitas mentes refletindo suas psiquês - desejos e recalques - e colocando tudo em escrita, gerando uma mitologia com histórias e lendas.  Esse fenômeno chama-se creepypasta e tem muita relação com lendas urbanas em alguns aspectos  O mais interessante são os sentidos (re)ativados nessa obra tão difusa porém tão perto do imaginário de um grupo!  

Logo, é muito importante entendermos melhor como existem essas Salas Traseiras. 

Organização básica dos Backrooms. 

A imagem e texto do post original é o ponto de partida de duas interpretações bem distintas dos Backrooms.  Mas ambas concordam que as salas amarelas mofadas são o ponto de partida, e se chama nível 0.  Ambos grupos de exploradores concordam que os níveis 1, 2 e 3 existem (e da mesma forma) porém ... um grupo segue adiante e vai descendo a mais e mais níveis, cada um mais surreal (e quase sempre tão ou mais perigoso que o anterior).  O grupo ''original'' de exploradores coloca o nível 3 como o último, mas abre a possibilidade de haver 9 no total.  


Os níveis são todos compostos por espaços liminais (uma variante em fuga do não-lugar de Marc Augé): (imagens de) espaços de passagem abandonados ou vazios e que trazem uma sensação de vazio, nostalgia ou estranhamento.  Espaços liminais incluem piscinas de clube quando o clube está fechado, escola depois do horário, uma rua de madrugadíssima com névoa.  Espaços liminais trazem a presença humana, invariavelmente, sejam obras abandonadas, espaços construídos, etc.  Uma paisagem natural é o oposto lógico do espaço liminal.  

Ambas as leituras dos Backrooms garantem a existência de criaturas dos Backrooms, muitas das quais foram humanos que noclip nas Salas Traseiras e que não conseguiram fugir das criaturas ou foram transformadas pelo eterno espectro da loucura e da claustrofobia, que o espaço parece fisicamente induzir nos exploradores.  

O nível 1 é uma variante do nível 0 e pode ser alcançado após 4 dias de caminhada em qualquer direção.  O espaço ''se transforma'' em um galpão gigantesco, ainda úmido, corredores, as luzes têm um zunido maior, mais irritante, e piscam muito. E é muito quente.  Esse nível se espreme depois de 16 dias de exploração e começa a se transformar em corredores de manutenção quentíssimos e mal iluminados.  São muito claustrofóbicos.  É nesse ponto que as leituras de grupos diferentes começa, e um grupo segue explorando, indo ao nível três e além ( um enorme depósito de máquinas de comida e refrigerantes, gratuitas, eternamente estocadas, sem monstros, por exemplo no nível 6.1).

as máquinas que habitam o 6.1



O mapeamento segue, e a cada dia mais e mais níveis, e sub-níveis, e níveis negativos são ''descritos''. 

O que isso pode significar?

Não há como não perceber que as Salas Traseiras são espaços psíquicos, e grupais, construídos em conjunto, formando uma uni-mente.  Esses espaços narrativos grupais são um sintoma muito interessante da hipertecnologia que experienciamos no nosso cotidiano.  Temos uma obra conjunta que projeta desejos, medos, recalques, etc. não só individuais mas também como experiência de grupo, o acordado.   No grupo ''dissidente'' temos camadas e camadas de não-lugares que podemos identificar como estranhamente familiares para quem está inserido em espaços urbanos.  É uma nostalgia não do espaço mas do háptico ( = a experiência de se estar num espaço assim).  É como uma sala de cinema vazia que você volta pra buscar a chave do carro. 

Quero pesquisar mais sobre isso.